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Teatro de Caicó ganha projeção nacional e Collecione reúne talentos da terra em apresentação especial

Em Cultura por RedaçãoDeixe um comentário

Alexandre Muniz tem um sonho: fazer com que o teatro de Caicó seja tão conhecido como alguns dos principais símbolos da cidade: o queijo, o bordado e a carne de sol. E para realizar esse desejo, o ator não vem medindo esforços. Trabalho, dedicação e um amor incomparável às artes cênicas são características que ele carrega por onde passa Brasil afora. E olha que ele vem desbravando o país com o espetáculo “P´S”, elogiado por onde vai passando.

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Frutos de tamanha dedicação já estão sendo colhidos. Exemplo das premiações de melhor ator que Alexandre recebeu nos festivais de Blumenau/SC e em Lauro de Freitas/BA. Esse sucesso impulsiona o teatro caicoense, que ganha notoriedade, incentivando o surgimento de novos grupos e dando ainda mais visibilidade aos que estão em atividade. O interesse de Alexandre pelo teatro começou cedo, quando ele morava na cidade paraibana de Catolé do Rocha. Natural de Caicó, lá ele estudou em uma escola coordenada por freiras da Alemanha e as mesmas incentivavam bastante a prática cultural, inclusive o teatro.

Ao regressar para Caicó, o artista voltou a ter contato com as artes cênicas em meados da década de 90, incentivado pelas aulas do professor Francisco Félix, que convidou seus alunos a fazerem um teste para uma peça que ele estava montando. Alexandre não pensou duas vezes antes de aceitar, mas conta que, apesar do preconceito que as pessoas tinham com quem fazia teatro, sabia que aquela era a sua vocação. “Foi um dos piores testes da minha vida, estava muito nervoso”, relatou. Mesmo com o resultado, Félix decidiu dar um voto de confiança ao artista que passou a integrar o elenco do grupo Retalhos de Vida, em 1997.

Arte na raça do Retalhos de Vida

Há mais de vinte anos na ativa, o grupo Retalhos de Vida possui uma importância simbólica para o contexto cultural local, pois de lá surgiram vários artistas de representatividade em Caicó e região. Félix, que é um desses heróis da resistência da cultura conta que aprendeu a dirigir e escrever na prática, enquanto coordenava os alunos que selecionava nas escolas. “A proposta era apostar na espontaneidade, montar o personagem segundo a sua emoção e passar algo para a plateia. Não tínhamos figurinos, cenários e nem linguagem teatral. Era um teatro bruto, primitivo. Encenar sem se preocupar com nada além do que estava sendo feito”, relatou Félix.

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Inicialmente, o Retalhos de Vida trabalhava temas polêmicos, mas de acordo com Félix, o público ficou muito seleto e era preciso expandir. Por isso, o grupo enveredou pelas comédias. O curioso disso tudo é que, apesar de escrever peças hilárias, o professor revela que detesta o gênero. O grupo pretende lançar novos espetáculos a partir do próximo ano.

A experiência no Retalhos de Vida trouxe vários hábitos à carreira de Alexandre. Pesquisas teatrais e estudos sobre obras clássicas se tornaram rotina na vida do artista. Nomes como do escritor Oscar Wilde, obras clássicas do cinema grego, entre outras referências, passaram a fazer parte dos seus estudos. “O Retalhos foi a nossa escola, pois não temos cursos na área cênica na região. Fizemos muitas apresentações no antigo salão da Escola Pré-Vocacional. Havia muito improviso na parte técnica. Carregávamos cadeiras, bancos de igreja… Era um teatro amador feito na raça, mas com muita paixão”, aponta Alexandre.

Do amadorismo à profissionalização

Novas influências começaram a impulsionar a carreira de Alexandre Muniz. A presença de Diana Fontes na direção do espetáculo Auto de Sant´Ana trouxe técnicas cênicas diferenciadas. Preparação de elenco, exercícios físicos e vocais foram algumas das novas técnicas introduzidas no teatro de Caicó. “O que abriu as nossas mentes, pois era uma forma diferente de fazer teatro com músicas, danças e coreografias”. Ele relata que esse legado modificou o cenário teatral de toda a região, pois a peça contava com artistas de Caicó, Currais Novos e Florânia.

E foi nesse espetáculo que Alexandre Muniz interpretou um personagem marcante em sua carreira: o papel do vaqueiro, protagonista do Auto de Sant´Ana. Sua performance chamou a atenção do professor Lourival Andrade, diretor teatral com trabalhos reconhecidos no sul do país e que veio residir em Caicó no ano de 2009, sendo professor de História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

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Lourival acompanhou a peça e convidou Alexandre para montar um espetáculo profissional. “Percebi que as apresentações ficavam restritas a Caicó e região e não davam saltos maiores. Muito por hobby e menos por projetos de vida. Era preciso organizar e participar de editais, de festivais nacionais e internacionais”, declarou.

Uma característica dos artistas de Caicó que chamou a atenção de Lourival é o fato de que a emoção dos artistas não fica em segundo plano diante das técnicas teatrais. “Eles não estão contaminados pela neurose da técnica. Em muitos espetáculos pelo Brasil a técnica supera o ator. Em Caicó isso não acontece”, disse.

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Dessa parceria surgiu a Companhia Trapiá. O primeiro espetáculo foi inspirado no livro de Michel Foucalt: Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Do livro, surgiu o monólogo “P´S”, que é uma adaptação dessa obra, escrita pelo dramaturgo catarinense Gregory Heartel.

“Foram oito meses de cronogramas de ensaios, reuniões, assistindo a filmes e documentários, fazendo pesquisas e laboratórios até chegar ao resultado final. São visões diferentes que vão influenciando esse novo teatro na cidade de Caicó”, pontuou Alexandre. Sobre as duas premiações recebidas nos festivais ele enfatiza que já estava satisfeito com a indicação. Quando o resultado saiu e ele foi escolhido como melhor ator os olhos lacrimejaram e o coração disparou. “São momentos que a gente guarda. É o sonho que se torna realidade”, afirmou.

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O êxito da Companhia Trapiá é uma porta aberta para os outros grupos da cidade como Retalhos de vida, Cacimba, Arte e Vida, Balaio das Artes, Maria Cardoso, entre outros. É muita gente talentosa reunida, que realiza cultura com garra e amor. Os títulos nacionais recebidos pela Trapiá impulsionam e dão um novo gás a todos esses artistas. E, segundo Alexandre, em 2017 haverá um trabalho de formação teatral, buscando novos talentos. Uma nova peça também será lançada no próximo ano.

“Esse momento está chamando a atenção de outros grupos. O nosso teatro sempre foi feito na raça, mas a tendência é melhorar e mostrar a força do teatro caicoense, profissionalizando os grupos. Eu sonho que o teatro de Caicó seja tão lembrado como os nossos principais símbolos”, enfatizou.

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Centro Cultural de Caicó continua interditado

Enquanto os artistas locais continuam em atividade, ganhando notoriedade nacional e encenando novas peças, o Centro Cultural Adjuto Dias, principal palco para as suas apresentações, continua interditado. Uma grande articulação intitulada “Artistas na Gestão Cultural” aconteceu em Caicó, emplacando Alexandre Muniz na direção do teatro. A mobilização serviu de exemplo em vários estados do país.

Contudo, o que foi considerado como uma verdadeira vitória para a classe artística terminou esbarrando na burocracia e na estrutura danificada do teatro, bem como ausência do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), problemas que até hoje impediram o Centro Cultural de ser reaberto.

Enquanto os trâmites burocráticos são resolvidos, uma das alternativas encontradas por Alexandre foi a criação do Terreiro das Artes, que funciona no estacionamento do Centro Cultural. “Lancei a ideia e todos os meses oferecemos cultura gratuita para a população. Circos já foram colocados no espaço, bem como projetos importantes como o Conexão Elefante. Já tivemos apresentações de grupos do Rio de Janeiro, Pernambuco, Mossoró, Janduís, Umarizal, além dos grupos de Caicó. E no final do ano vamos realizar o Auto de Natal. Nossa ideia é continuar o projeto, mesmo depois que o teatro for reaberto”, pontuou.

Outros espaços que os artistas utilizam para suas apresentações são: o Galpão Cultural Cacimba das Artes, coordenado pelo ator Jonas Linhares; o auditório que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte adapta para apresentações culturais; a Casa de Cultura Popular; o salão da Escola Pré-Vocacional; e a Concha Acústica do SESC Seridó.

O grande questionamento que se faz é quando o teatro será reaberto para a população. Alexandre afirma que a autorização dos bombeiros já foi aprovada e já foram abertas chamadas de licitação para a reforma do teatro. A expectativa é que em 2017 as obras se iniciem. “Teremos o Centro Cultural reaberto com toda a segurança para a nossa gente”, afirmou Alexandre Muniz.

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Uma breve história do teatro de Caicó…

Os primeiros indícios do teatro realizado em Caicó remontam do início do século XX, sendo pioneira a companhia teatral Sociedade Dramática Caicoense, formada por rapazes, segundo os costumes daquela época apenas os homens faziam teatro, inclusive interpretavam os papéis femininos. O grupo se destacava pela luta em busca de um espaço para os artistas se apresentarem. Arthur Ribas foi o nosso primeiro grande artista cênico e a crítica elogiava a atuação desses desbravadores.

Alguns anos depois, surgia a primeiro grupo formado somente por mulheres: a Alliança Feminina Theatral, que se popularizou pela encenação de obras dramáticas. Entre as décadas de 30 e 60, o teatro amador teve a sua fase áurea. Entre os grupos que se destacavam nesse período havia o de alunos do Grupo Escolar Senador Guerra. Nomes como o de Hilda Araújo e Inácio Bezerra levantaram a bandeira do teatro nessa fase.

A década de 70 foi marcada por uma verdadeira efervescência cultural em Caicó com o surgimento de diversos grupos amadores. O prefeito da época, Manoel Torres, e o secretário de cultura, Joaquim Gaspar, buscaram parceria entre o município e a Associação Universitária de Caicó, coordenada por Oberdan Damásio, no intuito de revitalizar o teatro amador caicoense.

Os estudantes caicoenses passaram a se interessar pelas artes cênicas e formaram grupos nas escolas com temáticas diversificadas: infantis, religiosas, comédias e dramas. Textos de autores como Ariano Suassuna, Castro Alves e do Monsenhor Walfredo Gurgel foram encenados. O teatro de Caicó rompeu fronteiras e conseguiu se apresentar no Teatro Alberto Maranhão em Natal e no Festival de Arcozelo, no Rio de Janeiro. Vários nomes despontaram como o de Galvão Freire, Ronaldo Carlos, Antônio Geneldson Cardoso (Quiquiu) e sua mãe Maria Cardoso.

Grupos de teatro ligados à Igreja Católica também foram importantes no cenário local, já na década de 80. Francisco das Chagas Silva, o Maguila, era um dos integrantes da Pastoral da Juventude levando discussões importantes para a municipalidade e incentivando a formação de grupos em todo o Seridó.

O grupo Maria Cardoso surgiu em 1983, sob a coordenação de Quiquiu. O nome, obviamente, era uma homenagem a sua mãe. Já o Retalhos de Vida surgiu no início da década de 90, coordenado pelo professor Francisco Félix Filho. Além da realização de várias peças, o grupo tem um trabalho de formação teatral com realização de oficinas em cidades como Parelhas/RN e Caiçara do Norte/CE. O prêmio Molambo, realizado anualmente pela Companhia, premia os melhores do ano. E a história continua sendo escrita…

Por: Raildon Lucena / Fotos: Dyego Leandro para Revista Collecione

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