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Como é possível fazer a diferença com os exemplos do grupo de escoteiros de Caicó e a ASCAMARCA

Em Histórias por RedaçãoDeixe um comentário

Em um mundo cada vez mais individualista se torna admirável determinados trabalhos em comunidade que visam o bem estar social em torno de um objetivo em comum. Em Caicó, um bom exemplo para ilustrar esse panorama gira em torno do Grupo de Escoteiros Valle Sobrinho, fundado na cidade em 1967 pelo professor Reinaldo Ricardo. Atualmente existem 85 membros registrados e outros 25 em etapas de integração, o que incluem crianças, jovens e adultos divididos em categorias por meio de jogos que desenvolvem o lado intelectual, social, afetivo, espiritual e o caráter dos jovens com objetivo de formá-los como grandes cidadãos.

“Não necessariamente o jovem precisa entrar desde cedo no movimento escotista, mas pode ingressar a partir dos seus 6 anos e 6 meses. A partir disso existem os ramos divididos por idades (lobinho, escoteiro, sênior e pioneiro – ver box autoexplicativo), dessa forma para avançar nas etapas, eles precisam progredir e participar das atividades”, conta Tázya Araújo de Medeiros, atual diretora presidente do grupo e a primeira mulher a dirigi-lo em seus 50 anos de existência em Caicó.

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O calendário de atividades pode ser modificado diante do que for previamente planejado, mas geralmente os grupos se reúnem até três vezes por semana. Dentre os diferenciais que Tázya enumera no movimento escotista, ela inclui: “A importância maior está na formação do jovem em um cidadão, aprendendo a viver e trabalhar em equipe, proporcionando um projeto de vida para que se possa caminhar com seus próprios conhecimentos, sejam estes no mercado de trabalho ou acadêmico, e ainda assim, fortalecer o caráter pessoal do indivíduo”.

O empresário Josemar Alves de Oliveira participa do movimento escotista há mais de 40 anos e uma das grandes lições que destaca no grupo está no fato de oportunizar. “O jovem tem a possibilidade de agregar valor à sua identidade de ser humano, tornando-se um homem útil à sociedade e contribuindo para fazê-la melhor”, afirma. Já para Galvão Freire, também empresário, e que se fez presente no grupo de 1973 a 1981, o movimento rende ao jovem as bases certas. “Há vários ensinamentos: como conviver com diferentes pensamentos e ideias, a prática de uma competição sadia, o aprender a fazer fazendo, ensina a conviver em harmonia com a natureza e a ser correto com as coisas que pertencem à coletividade”, aponta.

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Para manter as suas atividades, o grupo conta com doações, anuidades pagas por responsáveis dos jovens, academia de judô e jiu-jitsu, bem como trabalhos voluntários dos escotistas, dirigentes e Clube da Flor de Lis – formado por antigos escoteiros, pais e simpatizantes do movimento. “É interessante frisar que após os 21 anos, qualquer pessoa pode ingressar no movimento como adulto voluntário, atuando como escotista e, dessa forma, pode auxiliar nas realizações de atividades dos jovens ou como dirigentes, realizando funções administrativas”, complementa. A vida em equipe e ao ar livre estão entre as atividades empregadas pelo grupo e implementadas através de acampamentos, fogueiras, jogos, rastreamentos, deduções, observações, boas ações, técnicas de primeiros socorros e práticas de alimentação.

A Associação dos Catadores de Lixo de Caicó pode ser encarada também como outro exemplo de organização não governamental, de caráter social e com reconhecimento de utilidade pública por lei municipal que atua em benefícios coletivos. A ação teve início em 2009 com a identificação dos catadores que viviam no lixão, pela Cáritas Diocesana de Caicó – entidade de assistência social vinculada à Diocese da cidade.

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Em 2011 com a Campanha da Fraternidade, evento organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que teve como tema: a Fraternidade e a Vida no Planeta; a Diocese de Caicó elegeu no mesmo ano, como gesto concreto da campanha, o fortalecimento e a organização dos catadores em associação, a partir da conscientização destes acerca das condições insalubres que se encontravam e a necessidade de estruturação do seu trabalho, na perspectiva de iniciar um processo de implantação da coleta seletiva no município de Caicó. Levando em consideração a inclusão sócio produtiva destes trabalhadores de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, sob a lei nº 12.305/10, que institui a coleta seletiva solidária como um dos componentes da Gestão Municipal dos Resíduos Sólidos e que prevê a eliminação dos lixões em todo Brasil.

Em 2012, a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Caicó-RN (ASCAMARCA) foi fundada, a partir de um intenso processo de formação, mobilização e articulação dos catadores e da comunidade Frei Damião, com o apoio da Cáritas Diocesana e parceiros. Em 2013 aconteceu o processo de negociação com a gestão municipal, onde o projeto teve início teve início por meio de um convênio firmado entre a Cáritas e a Prefeitura Municipal de Caicó, através da Secretaria Municipal de Habitação, Trabalho e Assistência Social (SEMTHAS). Contemplando assim, a capacitação dos catadores, em atividades de mobilização, aluguel de galpões, aquisição de equipamentos básicos para o funcionamento da associação e realização da coleta seletiva, priorizando aqueles que trabalhavam no lixão e que estavam associados à ASCAMARCA.

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“As conquistas alcançadas pelos catadores são inúmeras, mas, entre as principais, destacaria o acesso às políticas públicas, como a de assistência social, a partir do CADUNICO (Cadastro Único para Programas Sociais), para participação nos programas do Governo Federal, bem como o acompanhamento dos catadores através dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), reconhecimento destes sobre seus direitos e deveres, como também participação no programa RN Sustentável”, enumera Paula Salmana, gestora ambiental na Cáritas Diocesana de Caicó.

Desde 1997 trabalhando no lixão, Alcides Belarmino da Silva, 49 anos, atual presidente, viu a sua vida mudar após ingressar na associação. “Comecei a trabalhar no lixão porque era a única alternativa que eu tive devido a pouca oferta de empregos em Caicó. Antes eu vivia bebendo, acredito que era por não ter o reconhecimento como cidadão e trabalhador. A associação melhorou a minha vida em 200%. Hoje a gente tem estrutura, lá no lixão faltam condições. Por ser da associação, já fui a São Paulo e Brasília para participar de movimentos nacionais dos catadores. Hoje também sou o representante do Seridó e já fui a ‘Expocatadores’ e outras feiras para receber capacitações”, aponta.

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A Associação dos Catadores de Lixo de Caicó realiza rotas de coleta em quatro bairros da cidade: Paraíba, Centro, Castelo Branco e Maynard. O que é recolhido recebe o destino adequado para que seja feito o descarte de lixo de forma responsável. “Queremos despertar a consciência das pessoas que façam, em suas casas, a separação dos materiais na hora de descarta-los. Pra isso basta separar o lixo molhado do seco”, complementa Alcides. Ao todo, hoje em dia, a associação conta com 14 membros que apesar de terem cargos específicos, dinamizam seus trabalhos, realizando também outras atividades de colegas em sistema de rodízio.

Cabe, portanto, à associação fazer a triagem dos materiais, comercializar e prensar materiais como o papelão para comercializá-los junto às empresas de reciclagem. E para quem pensa que esse tipo de trabalho não desperta o prazer em seus membros está enganado. “Muitas pessoas me perguntam: `Tão bonitinha e por que não consegue um emprego melhor?’. A gente tem que fazer o que gosta. Apesar de ter outro emprego, eu gosto também de trabalhar com o lixo. Aprendi a lidar. Não adianta querer me habilitar só em outro emprego, somente por questões de aparências não”, afirma Carina Louise, 29 anos, secretária da ASCAMARCA.

Diante dos afazeres diários, um dos papéis mais fundamentais que a associação se interessa em despertar na população é o da conscientização. “A gente trabalha a nossa autoestima porque praticamos a humildade. Quando a gente está em coleta, de porta em porta, e abrimos sacolas expostas nas frentes das casas para retirar o que precisamos, às vezes somos mal tratados porque acham que nós iremos bagunçar aquele lixo, quando não é verdade. Isso acontece com alguns catadores que não pertencem à associação e não recebem as orientações de corretas de coleta, mas aí a gente conversa pra tentar abrandar o coração daquela pessoa e no final dá certo, muitos até nos ajudam já fazendo a separação do lixo seco com o molhado”, resume.

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