Collecione Crônicas por Valério Caetano: E se o Seridó fosse um país?

Em Caicó, Cultura, Economia/Negócios, Gastronomia, Histórias por RedaçãoDeixe um comentário

Adoramos relembrar boas matérias. Na segunda edição da revista, em meados de Fevereiro de 2011, o premiado jornalista Valério Caetano escreveu uma crônica ficcionista que ficou na história e até hoje é muito relembrada. Decidimos, portanto, relembrá-la. Vale a pena ler de novo…

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A ficção fascina o ser humano há centenas de anos. A magia que o cinema exerce em cada um de nós está aí pra não me deixar mentir. Avatar, Guerra nas Estrelas, Alice no País das Maravilhas, O Auto da Compadecida, Harry Potter… Poderíamos citar dezenas de filmes onde a fantasia é o que prende o espectador à telona. A ficção é uma porta para o imaginário, para outra dimensão. Nela tudo é possível, depende de o quanto longe possamos olhar.

Nossa região tem inúmeros personagens inusitados com uma cultura única e, de tanto andar por este país de meu Deus, vi coisas que só acontecem por aqui, por isso me arrisco a imaginá-la como uma República Federativa Independente. Passaportes por favor! Vocês estão chegando a um país chamado Seridó.

 

E se o Seridó fosse um país?

 

A capital seria Caicó. A moda seria o Currais Novos, muito valorizado em relação ao nosso antigo real. Um Currais Novos valeria três reais velhos.

Altos subsídios proibiriam a importação de colchões para beneficiar a cidade de Jardim de Piranhas, maior produtora de rede da República Federativa do Seridó.

Adelçon seria o Ministro da Economia e o acariense Dom Eugênio Sales voltaria à ativa tomando posse como Cardeal primaz do país Seridó.

Teríamos uma das maiores reservas de ferro do mundo localizada em Jucurutu.

Dia 13 de Novembro seria feriado para celebrar o nascimento do cantor seridoense Elino Julião, que, segundos alguns, teria inspirado o filme Tropa de Elite com sua música “O rabo do jumento”.

O presidente da República Federativa do Seridó sairia de uma disputa acirrada entre Vicentinho de Acari – repatriado após longos anos de exílio em um país chamado São Paulo – e o Magão, defensor perpétuo da cultura carnavalesca seridoense. Qualquer um dos dois que vencesse teria que cumprir a principal promessa de suas campanhas: aumentar o período do Carnaval de Caicó para 30 dias.

O bairro Paraíba em Caicó, batizado assim para homenagear o país vizinho, do qual um dia já fizemos parte, teria seu nome mudado para Bairro Francisco Gomes, justo reconhecimento a F. Gomes, seu morador mais ilustre.

O Palácio do Governo já estaria pronto. O presidente despacharia no Castelo de Engady, lugar onde receberia as autoridades estrangeiras. Quando fosse a Jardim do Seridó, Serra Negra, São Fernando ou São José, o presidente faria a viagem no lombo de um aero-jegue, animal sagrado no Seridó por já ter servido como transporte oficial de Jesus. As viagens mais longas seriam feitas de moto-táxi, afinal a capital Caicó, uma das pioneiras no serviço, tem cerca de dez mil motocicletas.

Nosso petróleo e sal viriam de trocas com o país amigo Mossoró, famoso em todo mundo por ter botado Lampião para correr. A troca seria feita por telhas e tijolos de primeira qualidade de Parelhas e Cruzeta. Sal, aliás, é elemento que não poderia faltar neste país chamado Seridó. Dele dependeria nossa maior fonte de riqueza: o preparo de carne de sol, da qual seríamos o maior exportador mundial.

Nosso embaixador no Vaticano, Monsenhor Tércio, faria gestão junto a vossa Santidade o Papa, para acelerar o processo de canonização do médico Carlindo Dantas, maior milagreiro do Seridó.

A cidade de Currais Novos reabriria suas minas de xelita, mas antes proibíamos o envio do ferro de Jucurutu à China, país que arruinou nossas exportações de tungstênio colocando produto similar no mercado com um preço absurdamente mais barato.

Depois de inúmeras tentativas de diálogo sem sucesso com o presidente da França, uma investida militar, comandada pelo Exército do Seridó, marcharia rumo a Paris com a incumbência de destruir, com tiros de baladeiras e espingardas soca-soca, aquela cópia “peba” do nosso Arco do Triunfo, um caso de plágio escancarado.

Os turistas que viessem para o Carnaval ou Festa de Sant’Ana na capital do Seridó teriam que adquirir um dicionário de idioma seridoense para entender o nosso dialeto, senão ficariam perdidos ao ouvir, por exemplo, um guia turístico gritar na Rodoviária Manoel de Nenen:

“Olá, ruma de estrageiros. Se estiverem com fome, têm panelada, filhós ou chouriço no Mercado Público, mas cuidado com um gozo que tem lá dentro. Se ele atacar, rebole rápido uma pedra. Não posso guiar vocês, pois estou com um argueiro no olho. À noite teremos foguetões na Ilha”.

Para os que não são do Seridó, a tradução acima é: “Olá, monte de estrangeiros. Se estiverem com fome, têm várias comidas típicas da região no Mercado Público, mas cuidado com um cão vira-lata que tem lá dentro. Se ele atacar, atire rápido uma pedra. Não poderei guiar vocês, pois estou com um cisco no olho. À noite teremos show pirotécnico no maior espaço para shows da cidade”.

São João do Sabugi, Ipueira, Tenente Laurentino, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Lagoa Nova, São Vicente, Florânia, Santana do Seridó, Bodó, Santana do Matos, Equador e Ouro Branco ganhariam um reforço na segurança por ficarem na área de fronteira, para evitar que estrangeiros tentassem tomar nossas inesgotáveis reservas de queijo de manteiga, chouriço, bordados e carne de sol.

Bem, leitores da Collecione, a República Federativa do Seridó é apenas uma engraçada ficção, por isso, o final desta estória fica por conta da imaginação de cada um. Até a próxima.

 

Valério Caetano para Revista Collecione – 2ª edição – Fevereiro/2011.

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