Collecione Crônicas por Hosana Capuxú: Das mensagens sem destinatário

Em Histórias por Redação1 Comentar

Segunda-feira à noite, final de período, véspera de prova. Após um dia turbulento em que a gastrite pede trégua à ansiedade, mais uma notícia triste no mês de agosto, dentre tantos desgostos. Um acidente automobilístico envolvendo um dos melhores professores do curso de Direito da UFCG, Anrafel Lustosa.

O burburinho tomou conta dos grupos do whatsapp que especulavam o estado de saúde do professor. Por volta das 23h, para tristeza e desamparo de todos, a morte fora confirmada, e em questão de minutos uma enxurrada de lamentos inundou as páginas das redes sociais. Eram alunos, colegas de trabalho, amigos que ainda não acreditavam na fatalidade, a ficha que insistia em não cair. O luto absoluto foi decretado, as portas da universidade fechadas, a temível prova adiada. O céu cinzento sobre o campus de Sousa anunciava a partida de um grande mestre.

Fui sua aluna no início do curso, mas confesso que a admiração pelo homem inteligentíssimo, solícito e humilde sempre me acompanhou. Na terça-feira li muitas homenagens, palavras sinceras com tanto pesar que chegaram a me incomodar. Não pelo teor das mensagens, mas pela sensação de que elas vieram tarde demais e não chegariam ao seu destinatário.

Sentimental que sou, fiquei emocionada ao pensar na esposa que perdeu seu marido, no filho que perdeu seu pai, nos pais que perderam um filho. Convalesci-me, pois só quem já perdeu um ente tão próximo pode mensurar tamanha dor.

Fiquei pensando, cá com meus botões, o quão alegre ficaria o mestre em saber que seus alunos o reverenciavam, que suas lições não foram e nem serão esquecidas. Não só ele, mas quantas pessoas permitimos escapar do nosso lado sem saberem-se amadas, admiradas!

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Quando eu tinha poucos anos de idade, olhar inocente e cabelo preso em forma de coqueirinho, não imaginava que levariam meu super-herói predileto tão cedo. E posso apostar que o meu herói acusaria o destino de covarde por não lhe permitir ver o seu “ourinho” crescer. Eu nunca pude lhe entregar letras de amor, pois não sabia escrever. Mas hoje te dedico versos de saudade, quando ela me invade…

Depois dessa perda precoce, faço questão de que todas as pessoas que são importantes para mim saibam disso, é a minha missão especial. Buscando expressar meus sentimentos, acabei descobrindo o quão libertador pode ser permitir que no meu peito façam morada.

Na vida de outra pessoa, o meu sentimento pode até ser como uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.*

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*Frase inspirada nos ensinamentos de Madre Tereza de Calcutá

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RedaçãoCollecione Crônicas por Hosana Capuxú: Das mensagens sem destinatário
  • Cadidja Capuxú

    Não foi apenas o texto incrivelmente bem escrito nem tão só o sentimento de pesar da autora do texto, foi também a sinceridade e, por isso, a verdade em suas palavras ao expressar outros sentimentos igualmente nobres que me emocionaram. Sei que a saudade e falta que a escritora sente do seu paisinho é enorme e, aproveito a oportunidade para roubar um pouco a sua “missão especial” de não deixar as pessoas importantes nas nossas vidas sem saber o quanto as queremos bem e dizer que eu amo você, meu ourinho.