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Aviso às autoridades: “Desculpe, não temos água para beber”

Em Opinião por RedaçãoDeixe um comentário

O título desta postagem poderia tranquilamente ter sido a nossa resposta para a bancada federal do Rio Grande do Norte quando deputados e senadores aqui estiveram dias atrás. Quem não sente na pele o martírio da falta d’água talvez não compreenda a urgência de medidas para um povo. E não é somente falta d’água. É perda de rebanho, safra destruída, dívidas aumentadas, cidades desabastecidas…

Não que a audiência pública não seja importante, mas isso o então Presidente da Câmara e deputado Henrique Alves já tinha feito em Caicó há muito mais de um ano. Fora tantas outras que houveram por aí, em Câmaras, Prefeituras, Assembleia, Governo. Quais soluções concretas chegaram até nós? Parece que o povo cansou de conversa. O milho em quantidade insuficiente, as dívidas rurais não renegociadas, o gado morto e a torneira empoeirada sem água a passar, não poderia gerar outra atitude senão impaciência, para não dizer desespero. Até caso de suicídio por dívidas contraídas após a seca já aconteceu no sertão.

Honestamente, queríamos falar de coisas boas, contar uma situação bem diferente dessa, mas quando a realidade se impõe pela dor que provoca, inevitável se torna falar para o mundo ouvir. E as projeções não são animadoras, de acordo com a Fundação de Meteorologia e Recursos Hídricos do Ceará (Funceme), que norteia as discussões sobre o clima no Nordeste. “As projeções indicam uma probabilidade de cerca de 85% de que a condição e El Niño permaneça até o fim deste ano e início do próximo ano”, explica Eduardo Martins, presidente do órgão e doutor em Engenharia Civil e Ambiental pela Cornell University (EUA).

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João Abner Guimarães, professor da área de Recursos Hídricos da UFRN, até tentou apontar uma estratégia. Para ele, adutoras de engate rápido, que teoricamente ficam prontas em tempo mais célere, poderiam ser instaladas no Seridó numa parceria entre Governo e Exército. Acontece que, a adutora de mesmo modelo prometida para Currais Novos e Acari, que traria água da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, já se arrasta há mais de um ano e ainda não foi concluída. Fazendo um trocadilho, o engate demorou, e não temos mais tempo para esperar.

Barragem de Oiticicas, Transposição do Rio São Francisco e tudo o mais o quanto se fala de soluções para a seca seridoense são projetos de conclusão demorada, ainda mais com os frequentes atrasos que se instalam nessas obras, e até lá o nosso desafio é matar a sede agora. Por falar em sede, a instalação de poços, tão propalada pelos agentes públicos, parece nem ser prioridade, já que em todo o Estado existem dezenas de poços perfurados e não instalados. Aliás, se já caminhamos para o quinto ano consecutivo de estiagem severa e ainda estamos discutindo a aplicação de medidas emergenciais, é porque nem estas foram planejadas, imagine as duradouras.

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Já há até quem fale em evacuação de algumas áreas, acredite, como nos tempos de outrora, dada a dificuldade de abastecer toda uma região com carros-pipa, caso outras soluções não sejam apontadas e, principalmente, efetivadas. A antipatia de algumas autoridades paraibanas em ceder para o Seridó potiguar água do Açude de Coremas, que abastece várias cidades do sertão da Paraíba, já demonstra a gravidade da situação. Não se pode esquecer, ainda, das pessoas que inconscientemente (ou não) continuam a desperdiçar água, demonstrando fiel descompromisso com a demanda que nos ocupa.

Aos parlamentares e representantes do Executivo, que aqui trouxeram conversa, mas ainda não chegaram com soluções, não há o que aplaudir. Intenção e discurso bonito não ajudam o sertanejo a carregar a sua pesada cruz. As autoridades públicas têm o dever ético, moral e institucional de apresentar imediatamente à população os planos de enfrentamento à estiagem, e a forma como estes estão sendo efetivados. A inércia do poder não pode ser tão presente quanto a falta de chuva. E esse texto não terá conclusão. Esta, esperamos somente para as ações prometidas, para a adutora inacabada, para a barragem atrasada…

Por: Augusto Maia
Fotos: Dimas Mota
Legenda: Açude Itans atualmente

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